por Redação

 

Tomografia

 

Daqui a pouco sairei de casa para ir ao Hospital das Clínicas fazer um exame chamado de Tomografia. Não tenho a menor vontade. A minha disposição é de largar mão de médicos, exames, hospitais e seguir minha vida como se não houvesse nada. Eu faria isso, tenho essa coragem. Mas tenho pessoas que dependem de mim. Pessoas que me amam e para quem minha vida é cara e importante. Só por elas vou me submeter a esse e outros exames que já venho fazendo, praticamente, e vou fechar o ano com outro de cintilografia óssea. Exames de sangue já perdi a conta de quantos já fiz nesse tempo. Foram tubos e tubos de sangue drenados para exame.

Estou cheio, cansado desses ambientes, dessa opressão toda. Ver essa minha gente doente, com dores horríveis e sofrendo barbaridades nos hospitais. Cansado de depressões e tristezas que se abatem sobre mim instantaneamente e nada posso fazer senão sofrê-las. E eu posso me considerar privilegiado porque, embora seja hospital público, estou sendo assistido pelos melhores médicos possíveis. Há uma enorme canseira em cada exame, chá de banco e olhares aborrecidos de funcionários que pouco se importam. Outro dia o médico, depois de espera por ser atendido de quase quatro horas, perguntou-me se estava tudo bem. Ele riu quando eu disse que fora a bunda quadrada de tanto permanecer sentado, estava tudo bem. Claro ele não tem culpa, os médicos são gentis e atenciosos, não tenho do que reclamar deles. É que há muita gente gravemente doente, não só eu e sou consciente disso. Frequento filas com eles (e elas), e a gente conversa. Uma coisa tem sido boa: estou colocando em dia minhas leituras. Livros há anos encalhados aqui nas minhas prateleiras, estão sendo devorados. Não acho que esteja ficando mais sábio, mas né...

Não tenho escrito sobre essas coisas porque tenho pavor à piedade dos outros. Prefiro a ignorância. Depois, pareço bem e ninguém repara. Estou forte, frequento academia (cada vez menos e por menos tempo) e vivo normalmente. Não tão normal assim porque não posso beber nada alcoólico, não posso fumar um baseado para relaxar, nada. Estou há mais de um ano em abstinência. Às vezes não aguento e tomo uma ou duas latinhas, que já faz um mal danado; a cabeça parece que vai explodir. Vivo a zombar disso tudo, como se não fosse comigo. Na verdade, preciso dizer que não acredito muito que isso esta acontecendo comigo. Os exames, fatalmente, confirmam. Eu mesmo vi na tela da ultrassonografia, não há como negar. Não fico grilado, nem me preocupo muito. A não ser quando tenho que fazer esses malditos exames. Odeio me submeter.

Pior que não é só isso. Estou com várias doenças e todas bravas, raivosas e ignorantes. Nem percebem que estão acabando comigo. Outro dia até brinquei com um amigo dizendo que se eu passar por essa, posso, além de sobrevivente, ser imortal. Vão ter que me esmagar no chão, como uma barata, para que eu me deixe morrer. Não sou bem eu. Por mim, na primeira vez que me penduraram na tortura do "pau-de-arara", bem poderiam me matar. É o que eu mais deseja; implorei para que me matassem. E vieram tantas outras torturas físicas e piores que as físicas, tantos espancamentos, tantas humilhações, privações e décadas de sofrimentos... Mil vezes pensei que morrer fosse o melhor remédio para minha vida. Há algo em mim que persiste, que insiste e que vai me levando pela existência adentro, mesmo que arrastado, aos trambolhões.

Pensei em me matar incontáveis vezes. Mas não tive coragem. Sabia que havia de superar e vencer, mesmo que custasse toda dor do mundo. E não vai ser agora, não é mesmo? Dai porque tenho que fazer das tripas coração, seguir em frente e passar por quantos exames, operações, o caralho, até o fim.

                                         **

Luiz Mendes

25/11/2015. 

matérias relacionadas