Bicicleta, sacolinha reutilizável e hortas comunitárias? Ok, são boas iniciativas. Mas o buraco é muitíssimo mais embaixo

É bastante conhecida a conversa que o navegador francês Jean de Léry teve com um velho tupinambá, ali por 1500 e pouco, em uma praia que fica entre o Rio de Janeiro e o atual litoral norte paulista. O índio não compreendia por que os franceses passavam tantos perrengues para levar enormes carregamentos de pau-brasil para a terra deles, e o francês explicou que era para ganhar dinheiro e comprar coisas. O velho nativo seguia sem entender. “Mas para quê?”, perguntava ele, e completava: “Aqui, a terra nos dá tudo o que precisamos. Ela deu para meus avós, deu para mim e dará para os meus netos”.

Aquele não foi um diálogo de opiniões diferentes. Foi um diálogo de universos completamente antagônicos. Tanto que, a não ser por um breve período, eles não poderiam conviver: daquele contato entre duas culturas separadas por muito mais do que um oceano, apenas uma poderia sobreviver. E nós sabemos qual delas saiu vencedora.

Não vou cair na simplificação da ideia do Bom Selvagem e dizer que a sociedade tupinambá era perfeita e que a ocidental só tem defeitos. Mas há, entre os dois modelos, inegavelmente, uma diferença crucial, que pode ser assim resumida: enquanto uma sociedade consome para viver, a outra vive para consumir. Isso já era real no começo do século XVI, quando as praias brasileiras testemunharam aquela conversa entre o francês e o índio. Mas acelerou-se exponencialmente conforme os anos foram virando décadas, e as décadas, séculos. 

O que aquele velho tupinambá diria das filas que dão volta em quarteirões cada vez que a Apple lança um novo modelo de iPhone? No Ocidente nós fomos tão longe que as grandes empresas, hoje, trabalham com metas trimestrais. Não basta crescer e lucrar, é preciso bater recordes de crescimento e lucro. A cada trimestre.

Se os recursos naturais do planeta fossem infinitos, essa seria apenas uma questão de gostar ou não gostar desse modelo (os hippies, e os anarquistas antes deles, por exemplo, não gostavam). Não são – e nós ultrapassamos, há algumas décadas, o ponto de equilíbrio (aquele no qual o planeta consegue repor o que é consumido). Não apenas consumimos muito mais, per capita, do que quando aquele francês conversou com o velho tupinambá, como somos, hoje, mais de 7 bilhões de habitantes no planeta (indo para 10 bilhões em 2050), contra estimados 425 milhões naquela época.

NÃO TEM MAIS TERRA

Ao mesmo tempo, produzimos lixo em volumes apocalípticos, poluindo e ocupando vastas e preciosas áreas da terra e do mar. Os norte-americanos consomem absurdamente, e o resto do mundo olha para lá e quer ser como eles: mas, se todos consumíssemos naquele volume, seriam necessárias quatro Terras para bancar a festa. O consumo devastador inclui literalmente tudo, até aquilo que não vemos. Por exemplo: enquanto as torneiras refugam água em São Paulo e em outras cidades brasileiras, o país segue sendo o maior exportador mundial do precioso líquido, não na forma de um produto de luxo, como os franceses e suas garrafinhas de água Perrier, mas embutido em produtos como soja, açúcar e carnes. 

Se você leu a coluna até aqui, deve estar esperando a minha proposta para resolver o problema. Pois prepare-se para a decepção: não tenho proposta alguma. O que sei é que enquanto não começarmos a, tema polêmico, controlar a natalidade e a rever nosso modelo de hiperconsumo, não teremos saída. Estamos, de fato, indo para o abismo. Bicicleta, sacolinha reutilizável e hortas comunitárias? Ok, são boas iniciativas. Mas o buraco é muitíssimo mais embaixo. Se você duvida, volte no tempo, faça como Jean de Léry, bata um papinho com o velho tupinambá.


André Caramuru Aubert *, 53, é historiador, editor e autor do romance A vida nas montanhas (Editora Descaminhos). Seu e-mail é andre.aubert@hotmail.com

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