por Redação

Hospital das Clínicas

 

Foi fácil encontrar o Instituto de Radiologia. Estou ficando íntimo do Hospital das Clínicas, conhecendo todas suas dependências. A princípio fiquei espantado com suas dimensões: é quase uma cidade. Imagino que trabalhe mais de 5 mil pessoas por ali. Uma estrutura gigantesca. E tudo esta interligado, parece um labirinto sem fim.

Mandaram que eu seguisse uma faixa verde. É interessante: são faixas coloridas pintadas no chão; cada uma delas leva a um destino. No final da faixa verde estava o setor de Tomografia. A atendente, uma senhora muito simpática, me fez preencher um formulário de dados pessoais e me encaminhou a uma sala de espera. As cadeira eram confortáveis. Abri um livro de entrevistas que levara e li a entrevista toda de Noam Chomsky para Edney Silvestre. Esse dissidente do pensamento norte-americano fala que um homem não pode ser submetido a nenhum poder externo à sua vontade. Seu pensamento é na linha dos antigos anarquistas, sem que ele o seja. Me envolvi e até esqueci onde estava, quando fui chamado. Um médico me fez perguntas básicas e me encaminhou a uma enfermaria. A enfermeira, muito atenciosa, espetou uma agulha em minha veia e injetou-me sei-lá-o-que. A agulha permaneceu em meu braço e fui conduzido a outra sala de espera.

Não consegui mais ler. Fiquei pensando tanto que acabei por gosta das conclusões. Morrer seria um descanso. Não teria mais que me preocupar com o sustento de ninguém; com textos com prazo estourando; livros que pedem, imploram, para serem escritos; palestras que me sustentam, com pessoas que é preciso dar atenção, com metrô, carro, trânsito, roupas e com a morte, principalmente. Fiquei aliviado: liberdade, enfim.

Então fui chamado. Uma moça me fez deitar em uma cama de ferro na frente de uma máquina que parecia um túnel. Era a máquina do exame de tomografia. Conectou sei-lá-o-que na agulha ainda em meu braço e disse que eu iria sentir o corpo esquentar e um gosto amargo na boca. Brinquei, bem humorado, que estava mesmo um friozinho, esquentar vinha a calhar. O técnico veio conversar comigo e perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim e iniciou-se o exame.

O braço começou a esquentar, depois a barriga e quando chegou na cabeça estava pegando fogo! Pensei que ia explodir! Estava para reclamar, quando percebi que estava só na sala. O médico havia dito que algumas pessoas sentiam uma reação àquela injeção (era o "contraste"). Pensei logo que fosse meu caso: nossa, Como esquentou! E a máquina começou a conversar comigo. "Respira fundo e segura", depois "respire normalmente". Teve uma hora que pensei ela estivesse esquecido de mim. O pulmão já estava estourando de tanto segurar, então veio o "respire normalmente". E eu era levado para frente e voltava para trás; dentro e fora do túnel. Demorou uns 15 minutos e cessou aquele barulhão todo que a máquina fazia. A moça entrou na sala e disse que eu podia acertar a roupa e ir embora. O resultado seria dado pelo meu médico, na próxima consulta.

Sai meio tonto, mas tranquilo. Na enfermaria tiraram a agulha de meu braço e segui a linha verde até a portaria do Instituto. Foi fácil, ainda tem mais dois exames; cintilografia e de sangue. Estou fazendo exames desde o ano passado, mas não consigo me acostumar. É sempre um alívio quando pego o metrô para voltar para casa.

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Luiz Mendes

26/11/2015. 

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