por Natacha Cortêz

Em tempos de polarização, embates políticos e nervos à flor da pele, Marcia Tiburi propõe em seu novo livro o diálogo como forma de resistência

Em seu novo livro, Como conversar com um fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, a filósofa e colunista da revista CultMarcia Tiburi escreve: "É preciso hoje fazer filosofia com as pessoas. Insistir em uma 'filosofia em comum' que não seja o simples consenso, mas a coragem do diálogo. O diálogo não surge sem esforço".

Dividido em 67 breves, porém densos capítulos, o livro traz prefácio do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e reúne reflexões sobre o estado político, psicológico e cultural de nossa época. Trata, sobretudo, das dificuldades de interação com pessoas engessadas em suas visões tacanhas de mundo. De linchamentos a discursos preconceituosos de representantes do governo e de cidadãos comuns que comunicam ódio pelas redes sociais, a autora alerta sobre o perigo do esvaziamento político que "vem sendo mascarado como direito à livre expressão".

A seguir, a filósofa conversou com Tpm sobre o novo trabalho.

Por que é importante publicar Como conversar com um fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro neste momento? Em primeiro lugar, o título do livro não é apenas descritivo, mas a questão essencial sobre a qual ele versa. Ora, conversar com um fascista talvez realmente não seja possível, por isso mesmo, a questão é colocada ao nível de um experimento teórico-prático. E por que conversar com um fascista é difícil? Porque fascista é a personalidade autoritária que não deseja nada parecido com uma conversa. Para que haja uma conversa é preciso haver dois desejos em jogo. E o fascista não tem desejo que não seja o que impede o lugar do outro, seus direitos, sua existência. O fascista, termo que no livro é usado de maneira ampla, não deseja a conversa e muito menos um diálogo.

“Por que conversar com um fascista é muito difícil? Porque fascista é a personalidade autoritária que não deseja nada parecido com uma conversa”

Então, a começar pelo título, o livro se propõe como uma ironia. Uma ironia filosófica. A de praticar o impossível de conversar com quem não pode conversar. Seria um livro de auto-ajuda se não fosse irônico. Se bem que no atual contexto, levando em conta o estado do nosso autoritarismo que combina muito bem com a falta de senso de humor, ele pode ser um simpático livrinho de auto-ajuda (permita-me ironizar e, ao mesmo tempo, sinalizar para minha própria ironia, porque em contextos fascistas as pessoas perdem também esse senso inteligente para a ironia e é preciso avisar antes que alguém leve a sério...). Então, temos que o fascista não está a fim do diálogo e é isso o que eu proponho no livro: que a gente invista no diálogo mesmo que impossível. Até porque, se não nos propusermos a isso, é provável que ninguém mais fale com ninguém. Sim. É possível que tenhamos que parar de falar com metade da nossa família e amigos, assim como paramos de conversar há tempos com as pessoas das redes sociais que seriam, ironicamente, nosso "amigos" de Facebook ou algo do tipo. Essa ideia da conversa tem tudo a ver com a tarefa da filosofia na nossa época.

Qual é o papel da filosofia hoje? Se a filosofia pode alguma coisa no mundo em termos muito práticos é colocar diálogo nele, ajudar as pessoas a perceberem a dimensão de si mesmas e dos outros. A grande contribuição da filosofia para a nossa época é o diálogo. O diálogo exige reciprocidade, a construção da relação com o outro por meio de uma atenção ao que o outro diz, que leva a um exercício de pensamento conjunto em que a gente sempre se enfrenta com a diferença. Ou seja, a prática do diálogo não parte do consenso, mas do dissenso e não espera o consenso. O dissenso é mais do que saudável politicamente falando, ele é o próprio ser da nossa vida política. Até porque o consenso, quando aparece, é sempre uma máscara para interesses, acordos que nem sempre sustentam verdades e desejos reais, muito menos direitos de todos. Digamos que certa negação do outro, por medo, por inveja, por sentir-se ameaçado, seja um tanto inevitável no contexto onde está posto o dissenso, mas isso não justifica, nem pode ser motivo para que o ódio atravesse as relações e se torne seu descalibrador a ponto de inviabilizá-las. Suponhamos até que odiar seja inevitável, mas algo bem diferente surge no momento em que as pessoas passam a ostentar seu ódio por meio de palavras, frases, discursos. Há todo um jogo de linguagem envolvendo o ódio que se torna espetacular. É a esse espetáculo do ódio que podemos chamar de fascismo. Somos levados e convidados a sermos fascistas.

No livro, você diz que o discurso fascista convence muita gente porque por meio dele se conquista uma suposta posição de superioridade por meio da humilhação do outro. O fascista precisa dessa ideia de superioridade justamente por se sentir muito menor do que o outro a quem ele busca subjugar e negar. Todo fascista é alguém muito humilhado, muito ressentido. Alguém que precisa se esforçar muito para tornar-se quem é ou quem gostaria de parecer. Assim, não existe fascismo sem uma fala muito violenta que, de tempos em tempos, as pessoas aprendem a usar como uma espécie de moeda de troca. Mas muito mais do que isso, o discurso vira um objeto de ostentação. O que se expõe é a ignorância que está na base de todo preconceito, ou do preconceito que está na base de toda ignorância. Se trata de uma ignorância ostentatória que pretende vencer pela gritaria, pelo panelaço e, por fim, pelo extermínio do outro. O fascismo é, a meu ver, um jogo de linguagem cujo capital é o discurso pronto que se pode comprar barato nas ideologias expostas diariamente no mundo da vida, no cotidiano, e que é controlada pelos meios de comunicação de massa e pelas igrejas neofundamentalistas. A linguagem foi rebaixada entre nós. Rebaixada a uma mercadoria barata. A experiência política está destruída por conta de um empobrecimento radical da linguagem que vem se desenvolvendo em todos os campos. Linguagem é pensamento e vivemos na era do vazio do pensamento e da linguagem. Logo, vazio dos afetos e da ação, um verdadeiro vazio político.

Como identificamos um fascista? O fascista é aquela pessoa que está indisponível para o diálogo e está entregue ao discurso pronto, ao pensamento pronto. O jogo do diálogo é impossível para ele porque ele perdeu a dimensão do outro. O diálogo envolve o outro e o exercício do pensamento conjunto. O outro não existe para o fascista, desse modo, o outro não lhe causa nenhuma curiosidade, logo, podemos dizer que o conhecimento não lhe interessa. E se conhecer não lhe importa é porque ele cancelou sua vida cognitiva. As pessoas estão se deixando levar por isso. Em termos muito simples, podemos dizer que o fascista ficou "burro". Mas uma burrice que não é apenas cognitiva, uma burrice em termos morais. Porque lhe falta a percepção do outro. Isso deve nos levar a pensar que as pessoas estão ficando “burras” (limitadas, tapadas, incapazes de ver mais longe, com lacunas de compreensão devido à falta de curiosidade real) porque estão fechadas para o outro. Dizer burro pode parecer um exagero, mas se trata de uma questão filosófica fundamental. Todos nascemos ignorantes e assim permanecemos em certa medida ao longo da vida, superando nossa ignorância por meio de nossa abertura para o outro (seja ele uma pessoa, uma cultura, uma visão de mundo), contudo, o fascista seria aquele indivíduo que não seria capaz dessa abertura. Então ele estaciona, ele empaca, ele não vai adiante porque sobrevive cognitivamente de um sistema de pré-conceitos que ele mesmo não tem condições de questionar.

Essas pessoas são muito recorrentes hoje? Podemos dizer que ocorre em nossa época uma tremenda "fascistização" que tem funcionado para as pessoas também como uma moda. Para muitas pessoas, se trata de falar de modo preconceituoso no sentido de falar por falar. Há muita covardia no fascista. Há muita conversa fiada nessa covardia. E muita covardia nessa conversa fiada. O fascista não precisa ser alguém profundamente fascista, capaz de matar jovens negros, pobres, mulheres ou travestis, embora isso haja em profusão, mas pode ser alguém que vive seu fascismo de um jeito mais superficial apenas engordando o caldo do ódio. Podemos buscar a gênese do fascismo na história e nas profundezas da subjetividade humana e encontraremos muitas teorias interessantes, bem como questões que podem se constituir em mistérios insolúveis. Vale a pena estudar tudo isso, mas o meu livro tem uma pretensão bem menor. Eu gostaria de provocar um questionamento sobre o estado da nossa convivência como seres pensantes e capazes de respeitar o outro tendo em vista que toda a nossa experiência de ética e política, civilização e cidadania, depende do que fazemos uns com os outros. Nesse caso, eu queria apenas sinalizar para o falar como um fazer. É claro que eu não teria pensado nisso se não estivesse observando há tempos o autoritarismo na cultura brasileira, se não tivesse me ocupado de conceituar cotidiano como o lugar das experiências de naturalização e de banalização e se não me importasse, como muita gente que conheço, com o despreparo e a prepotência das pessoas (sobretudo as poderosas) que cresce e aparece no contexto dos discursos baseados no ódio e na paranoia.

“É preciso buscar entender como nos tornamos quem somos. É preciso parar pra pensar no que estamos fazendo uns com os outros”

Por que é importante que mulheres (ou mesmo qualquer outro público) leiam o livro? Se não conseguirmos conversar com um fascista, pelo menos não nos tornaremos um. Essa precisa ser a tentativa agora. Conversar com o meu lado prepotente e burro é, a meu ver, um ato redentor. Será que a gente consegue esse diálogo com a gente mesmo? A meu ver ninguém está livre de ser vítima e algoz de preconceitos. E só faremos cessar essa potência do nosso ser quando nos propusermos a pensar mais. Pensar com o outro. Não creio que nossos esforços tenham que se dirigir a nenhuma espécie de esperança no autoconhecimento, mas sim no autoquestionamento. É preciso buscar entender como nos tornamos quem somos. É preciso parar pra pensar no que estamos fazendo uns com os outros.

Gostaria que você comentasse sobre o desafio de estabelecer um diálogo legítimo com o outro, com o diferente. Para pessoas que pensam dentro de um regime de pensamento democrático essa não é uma tarefa que faça sentido, porque elas tentam o tempo todo o encontro com a diferença. Buscar a diferença é parte da vida, de todo diálogo. Mas para quem está dentro ou próximo de um regime de pensamento autoritário tudo é mais complicado. Para alguém que está muito fechado em si mesmo, essa tarefa é a mais importante. É preciso primeiro saber que existe um outro, com direitos iguais e com o direito básico de existir. De fato, estamos em uma época em que o direito do outro de existir está sendo combatido e o discurso é importante nisso tudo, porque por meio dele é que se transmitem as ideias. O diálogo é o contrário do discurso. Logo, o que eu estou propondo é que as pessoas se aventurem mais, com respeito, na experiência com a vida sabendo que os discursos nos controlam para que nunca cheguemos até o outro. E que o diálogo é a única chance de encontro que há entre nós. A grande contribuição da filosofia para a nossa época é, a meu ver, essa.

Vai lá: Como conversar com um fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (ed. Record) R$ 42,90

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