por Gaía Passarelli

Os lados ruins de uma vida que parece feita apenas de sonhos

Faz mais ou menos uns dois anos que passei a levar a sério uma transição do jornalismo musical para o travel writing. O início mesmo pode ter sido quando comecei a viajar cobrindo festival de música, lá em 2008/09. Ou quando comecei a escrever para a MatadorNetwork, em 2013. Não importa muito, mas hoje, fim de 2015, me sinto estranha quando tenho que escrever sobre música. Não significa que tenha parado de ouvir musica uma mudança de interesses. Gosto muito do que estou fazendo hoje e, ao contrário dos (muitos) anos escrevendo sobre techno ou indie rock, enxergo uma porção de projetos no futuro. Gostar do que faço não muda o fato de que viajar envolve um monte de estresse. E viajar a trabalho é ainda menos mole. Inspirada nas conversas que tive na última semana com o grupo de amigos viajantes atual, esses são os lados ruins de uma vida que só parece de sonho.

1 - A falta de um relacionamento estável

Viajar sozinho é legal pra caralho e todo mundo deve fazer isso na vida, mas existem dias em que você quer compartilhar aquele pôr do sol maravilhoso com seu alguém especial. Também vale para amizades: conheci pessoas maravilhosas na estrada nos últimos dois anos, e a cada vez que me despeço não sei se verei a pessoa de novo. Não tem WhatsApp que resolva. É difícil um relacionamento sobreviver a tantas viagens. Se você viaja horrores e sua metade não, isso será motivo de distanciamento. Se vocês viajam juntos, a chance é que briguem na fila do check in num aeroporto asiático durante a temporada de monções.

2 - Não ver os lugares direito

Algumas pessoas muito felizes conseguem passar meses explorando um mesmo lugar. Imagino que tenha suas dificuldades e acho foda, mas não cabe na minha vida. Tenho filho, trabalho e coisas para realizar na minha cidade, então minhas viagens são mais curtas do que eu gostaria. Às vezes BEM mais curtas. Isso significa ver um parque arqueológico maia em cerca de quatro horas, quando o correto seria passar uns dois dias, sem tempo para comprar souvenirs, para conversar com as pessoas ou ver o pôr do sol de cima da pirâmide. “Bom, pelo menos você foi até lá”. É, claro que sim. Mas levou 16 horas de van, ida e volta, e rendeu uma dor nas costas que vai me acompanhar por meses. Por que nem todo travel blogger faz yoga de manhã. O que me leva ao próximo ponto...

3 - O desconforto

Um dos meus quotes preferidos de viagem é esse, do escritor inglês Paul Theroux: "Viajar é glamuroso apenas em retrospecto”. Não sei como é na primeira classe da Lufthansa, mas viajar é desconfortável pacas. E viajar o tempo todo, então… bom, faça as contas. Além do mais, o café é horrível em quase todo lugar do mundo. 

4- O "marketing aspiracional" forçado

Quantos blogueiros de viagem falam sobre o lado chato de viajar? Você que vê essas fotos de curso de travel writing onde o feliz blogueiro está com um laptop num lugar maravilhoso e um drink com guarda-chuva do lado, saiba: é mentira. Nesse exato momento estou escrevendo de um quarto de hotel na Costa Rica cuja vista é uma estrada, um shopping center com um luminoso do Hooters e o estacionamento de um hospital – uma vista tão empolgando quanto uma fila de cartório. No final de outubro uma instagramer famosa causou emoções fortes quando teve um tipo de meltdown público falando sobre como sua vida é superficial e vazia e etc e tal. Depois teve gente falando que era hoax, mas não é isso que importa. O que importa é que a rotina que a Essena O’Neil descreveu em suas captions atualizadas no Instagram são verdadeiras pra todo mundo que vive 100% de travel blogging. Ou seja: aquela foto sorridente muitas vezes é forçada, aquela mochila aparece na foto porque é jabá. E tudo bem que seja, não é nenhum crime. Mas honestidade é bom e faz bem.  

5 - A falta de tempo

Resumindo, passei a querer diminuir o ritmo de viagens. Viajar, afinal, não é a única coisa que importa. Esse ano estive em pelo menos 10 países (e ainda é novembro!). Falta tempo para ver os lugares direito quando estou na estrada, e falta tempo para curtir meu filho e meus amigos quando estou em São Paulo. Tenho um gosto amargo de culpa em relação ao fim de um relacionamento que eu adorava, as contas nunca estão em dia, o apartamento que ocupo não tem cara de casa, meu amor atual mora há um oceano de distância e o livro que quero escrever nunca sai da etapa book proposal.

É ruim? CLARO QUE NÃO! Mas hoje, vendo a chuva cair no estacionamento, com dor nas costas e encarando a terceira xícara de café aguado (porra, o café na Costa Rica não era ótimo? cadê?) achei importante lançar a real. Talvez esteja sofrendo de FOMO (fear of missing out) de viajante. Talvez só precise descansar. De qualquer forma: fácil, não é. 

Gaía Passarelli, 38, até reclama, mas adora viajar que nem todo mundo.

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